Em Londres, Lady Ashcroft decidiu dar uma festa fina e contratou uma empregada italiana, Miss Scapeccia, que tinha emigrado recentemente para a Inglaterra. “Não se esqueça dos pegadores de gelo”, ordenou a madame inglesa. “Não fica bem quando os homens vão ao banheiro, tiram para fora e colocam de volta, e depois têm de pegar os cubos de gelo com seus dedos.” “Sim madame” – respondeu a moça italiana. Mais tarde, depois que os convidados tinham ido embora, Lady disse: “Miss Scapeccia, eu achei que tinha lhe falado sobre os pegadores de gelo!” “Eu os coloquei, Lady, eu juro!” “Bem, eu nos os vi em cima da mesa!” “Em cima da mesa?!! Eu os coloquei no banheiro!!”
"Não entrei na trilha dos saltimbancos por acaso, nem para ser um reles fazedor de graça. Eu queria consagrar a minha vida através de um imperioso apelo vocacional. Mas as pessoas, com suas receitas de sucesso, sem nenhum escrúpulo, sem nenhuma sensibilidade, vieram me falar de mil e um palhaços geniais. Tem um que comove multidões ao aprisionar um raio de sol pra levar pra casa...Tem um que faz balões de gás dançarem alegremente ao som de seu trompete...Tem um que ridicularizou um tirano, um assassino sanguinário que queria ser o senhor absoluto do mundo...Tem um comprido, de calça na canela, arcado para a frente devido ao pesado fardo da indignação contra a mecanização imposta ao homem moderno...Tem o magro sonso...E o gordo ingênuo e bravo...Tem os que dão piruetas, saltam, dão cambalhotas, levam bofetões...Tem os que tocam música clássica em garrafas vazias penduradas num varal...Tem outro... e outro... e outro...Tem aquele pobre palhaço louco que andava pelas igrejas jogando malabares diante das imagens da Santa Maria; esse, me disseram, morreu enforcado na cruz do Senhor Jesus Cristo, numa catedral gótica...Escutei humilde a história de cada um desses incríveis artistas que viajavam pelas vias da loucura. Saber desses palhaços...para mim, Bobo Plin, um palhacinho de merda que começava a engatinhar nos picadeiros mal iluminados das espeluncas...saber desses palhaços só serviu para me tolher. Quanto mais eu sabia deles, mais e mais Bobo Plin, o palhaço que eu queria ser, se enroscava nas minhas entranhas. A referência esmagava minha intuição e provocava auto-censura. A comparação, maldita inimiga da igualdade, fazia dos magníficos histriões elementos inibidores da minha criatividade. Agora, Bobo Plin não quer saber da façanha desses belos palhaços. Não quer vê-los. Nem quer saber de seus bigodes, sapatões, guizos, pompoms, bolas, balões e babados. A magia dos grandes artistas não pode ser ensinada; são segredos que se aprende com o coração. Essa magia se manifesta quando se resolve fazer a própria alma. Para Bobo Plin se irmanar com os grandes palhaços que luziram nos palcos e picadeiros tem que se esquecer deles para sempre. Não pode recolher nenhuma indicação deixada no caminho. Tem que andar sem bússola, na mais tenebrosa escuridão. Qualquer brilho, qualquer estrela, qualquer sol, qualquer referencial vira um ponto hipnótico embrutecedor. E eu quero fazer a minha alma."
Reflexões Teatrais - Plinio Marcos (... num pequeno circo)
A moça do arame Equilibrando a sombrinha Era de uma beleza instantânea e fulgurante! A moça do arame ia deslizando e despindo-se. Lentamente. Só para judiar. E eu com os olhos cada vez mais arregalados Até parecerem dois pires: Meu tio dizia: “bobo!” Não sabes Que elas sempre trazem uma roupa de malha por baixo? (Naqueles voluptuosos tempos não havia nem maiôs nem biquínis...) Sim! Mas toda a deliciante angústia dos meus olhos virgens Segredáva-me Sempre: “Quem sabe?”
Eu tinha oito anos e sabia esperar.
Agora não sei esperar mais nada Desta nem da outra vida. No entanto O menino (que não sei como insiste em não morrer em mim) ainda e sempre apesar de tudo apesar de todas as desesperanças, o menino às vezes segreda-me baixinho “Titio, quem sabe?...”
Um humilde “desocupado”, um palhaço, que anda pelas ruas, alegre, e sabendo gozar a vida. Vivendo das suas “tolices”, e das “trocas” com os outros pelos caminhos. Correndo terras em busca de aventuras, a fim de defender, lutar, e salvar... ou simplesmente, garantir o pão de amanhã. Sua dignidade é seu ridículo!
"A comédia é como um droga, aos poucos você vai se tornando dependente da gargalhada e do triunfo com a platéia. Passa os dias pensando merda, vendo os tropeções, escorregões, sustos e trombadas das pessoas nas ruas. Quer ler e ver tudo e principalmente conversar a respeito do assunto com aqueles que são tão viciados como você. O encontro entre comediantes e palhaços é um encontro de obcecados." (A Nobre Arte do Palhaço - Marcio Libar)
Aos 15 anos fiz minha primeira inserção no teatro. Foi no ensino fundamental, mas precisamente na 8º série. Tínhamos que preparar uma breve encenação para a aula de educação artística. Não me recordo mais qual era o tema, mas ficou em mim a primeira mordida deste germe.
Continuei no teatro quando passei para o ensino médio e não parei mais. Foram três anos de escola, três espetáculos por ano. Na mesma época, nos juntamos, alguns alunos, e decidimos montar um grupo fora da escola. Começamos a estudar, adquirindo livros, vendo teatro, e realizando encenações de espetáculos que nos mesmos escrevíamos. Depois deste primeiro grupo vieram outros grupos e montagens. E cada vez mais era absorvido por esse caminho e a cada passo que dava em sua direção descobria um pouco mais desta arte.
Vi meu primeiro palhaço aos 26 anos, e fiquei fascinado por aquela criatura grotesca , maravilhosamente linda, que “fazia” e “desfazia” na frente de um público que se perdia em risos. Decidi então que queria ser como ele, que sozinho em cena parecia ter a força de um grande elenco de atores. Era permitido a ele a comédia e também a tragédia. Um ator completo! Não sabia o que me aguardava.
Meu palhaço nasceu em 1998, quando principiei em minha primeira oficina. Descobri então que não se tratava apenas de ser ator, que por trás daquela mascara algo se revelava. Que ser palhaço é ser palhaço!
Depois deste primeiro mergulho na arte da palhaçaria, ficou em mim a pergunta: o que fazer? E convidado a participar de um projeto de intervenções urbanas, circulava de palhaço pelos vagões do metro, conversando e brincando com os passageiros, ouvindo histórias e construindo meu caminho na arte. As pessoas se divertiam e eu aprendia como meu palhaço se apresentava a um público.
Descobri a rua. Me arrumava e saia a rua com meu palhaço. No início um grande medo. Não havia um projeto que justificasse, era apenas eu, a rua e as pessoas. Comecei fazendo um percurso perto de casa. O primeiro dia foi fantástico! Lá estava eu sozinho circulando pela comunidade. No caminho havia uma feira livre e em cada barraca que passava e parava novas histórias, piadas e amizades aconteciam. Passei dois anos passeando sempre no mesmo dia da semana. E cada dia percebia um pouco mais o “sentido cômico” no contato com as pessoas. Guardo pra mim boas lembranças destas saídas.
Agora que monto este primeiro trabalho solo é a estas experiências que recorro. Recordando cada frase proferida ou ouvida na rua, dita por tantos amigos que meu palhaço ganhou nestes anos de caminhada. Sempre na busca de revelar os mais íntimos e recônditos cantos da natureza humana. Este contato direto com as pessoas me permitiu compreender alguns lugares do ridículo em mim.